domingo, 10 de outubro de 2010

A Herança (de Alma Welt)

Sem peso, nem culpada me sentir
Foi tarefa nada fácil para mim
Com minha mãe açoriana a perseguir
As alegrias desta vida com que vim,

Pois tive de meu Vati todo apoio,
Pensador erudito e pianista,
Que do colo materno num comboio
Tirou-me declarando: “Não insista!”

“Esta é minha, já sabes, não te metas
Farei dela minha Arte e Aventura
E livre a criarei em meio às letras.”

“Ao carregar família e este vinhedo,
Aquilo que não tive, por ventura
Será a sua herança e não seu medo...”

(sem data)

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Balanço final (de Alma Welt)

Quão colhemos nós dourados pomos
No sacro pomar da juventude!
No balanço, afinal, felizes fomos,
Eu a manter a chama enquanto pude

Malgrado injúrias, dores e pressão
Contra o amor puro e desatado
Que nascera antes mesmo da estação
E que quiseram logo ver ceifado.

Entretanto não devo me queixar
E sim prostrar-me ante meus numes
E agradecer a dádiva de amar,

Reconhecendo que debaixo do cilício
Pela transgressão aos bons costumes,
Abençoados fomos desde o início!...

(sem data)

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Memórias (de Alma Welt)

185

Ontem, eu corria, livre em mim
Em torno à minha casa avarandada
Soprando as sementes do capim,
Mais que observando: integrada

Às lindas coisas da relva e do ar,
Pequenas flores, insetos a voar,
Aves, nuvens, o vento nas coxilhas
Nesse desfilar de maravilhas.

Então ouvindo o piano, o som do rei,
Eu corria para vê-lo no escritório
(já que era ali seu território)

E de bruços me punha estendida
Num tapetinho debaixo do Steinway,
Que era a prova do quanto era querida...

Lendas do meu bosque (de Alma Welt)

(146)

O meu bosque reserva o seu segredo
Para quem tem olhos e ouvidos,
Poucos, na verdade, os escolhidos
Capazes de adentrarem-no sem medo.

Principalmente quando no crepúsculo
Principiam as fantasmagorias
E aquele vago lusco-fusco
Produzido por ocultas fadarias.

"Nada de bosque!" alertava a Matilde
"Que ali o malígno espreita
Tanto guria nobre como humilde."

"Conheci uma que sumiu e não mais vi
Para me contar que coisa é feita
Com aquelas que se agacham pro xixi..."

15/01/2007

De reinos e condados (de Alma Welt)

(137)

O meu bosque é um mundo insuspeitado
Que tenho ao meu dispor desde guria,
Com as lições matinais da cotovia,
Embora ela não seja do condado.

O rouxinol, também, anoitecendo
Eu ouço na memória ancestral,
Tão européia, eu sei, e espectral,
Esta mente com que tanto condescendo.

Pois meu Vati sustentava as minhas horas
No bosque buscando o cogumelo,
Para voltar somente com as amoras...

E eu sabia que ele garantia
A minha alma ansiosa pelo belo
Que os tempos e os reinos confundia.

12/01/2007

A princesa em farrapos (de Alma Welt)

(136)

Havia um peão na minha infância
Que me salvou de pequena enrascada:
Eu fora atravessar com muita ânsia
Uma cerca e fiquei toda enroscada.

Meu vestidinho enganchou-se no arame,
E quanto mais aflita, mais vexame.
Até que o peão chegou solícito
Com um carinho sério, mas implícito.

E ficando meu vestido em farrapos
Fui trazida em seu cavalo qual princesa
Que tivesse se perdido na floresta.

Mas chegando ao casarão levei sopapos
De minha mãe, a rainha da dureza,
Eu que esperava (e ainda espero) aquela festa...

12/01/2007

Debaixo da macieira (de Alma Welt)

Debaixo da minha macieira,
Por sagrada que é, fui desnudada.
Pela primeira vez a gurizada
Podia ver a guria nua inteira.

Então um guri, quase um piá,
Apontou-me o dedo ao baixo-ventre
(esse guri até ontem vi por cá ):
"É isto que tu vai dar pra gente?"

"É tão pequena, um risquinho, sem pipi!
Bah! Não vale a pena, dou desconto,
Mas te quero ver fazer xixi."

E foi então que em leve desaponto
Sem agachar-me urinei-me pela perna
Para uma platéia atenta e... terna.

17/01/2007

Uma outra infância (de Alma Welt)

Em recentes noites desta estância,
Eu reconheço comecei a sentir medo,
Coisa que não tive em minha infância
A menos que isso seja engano ledo:

Me lembro de sair sem outros lumes,
Do meu leito para ir até o jardim
Para sentir o perfume do jasmim,
Nua a vagar com os vagalumes.

Agora, envergonhada eu confesso
Que, assustada acordo e me apresso
Em camisola ir ao quarto da babá,

Minha Matilde velha que me abraça
Sob as cobertas furadas pela traça,
E que me esperavam desde lá...

17/01/2007

Recordações da guria do pampa (de Alma Welt)

Quando guria subi no umbu pampeiro
Para ver o mundo lá de cima
Mas logo deparei c'um formigueiro
E perdi por um minuto a auto-estima.

Gritei: "Rôdo, Galdério, me acudam!
Não sei mais descer, estou com medo,
Aqui tem formigas e elas grudam,
E já uma delas me picou o dedo!"

Rôdo, rindo até rolando, retorquiu:
"Bah! Quem te queria ver pelada hoje viu,
Já que estás por baixo sem calcinha,"

"E agora que estás nessa forquilha,
Cuida que não entre formiguinha
Nessa tua rachinha-maravilha!"

12/01/2007

O som da fruta (de Alma Welt)

Tem dias em que ando meio a esmo
Nos locais preferidos desta estância
Procurando o sentido, aquele mesmo,
Que neles encontrava na infância.

Mas percebo que a concentração
Como modo de estarmos num local,
É o contrário da perfeita integração
Que nos fazia ser o ser total

Que éramos naqueles tais instantes
Como a sombra fugidia de uma truta
Nas águas, com rumores circundantes

Do surdo crescimento de uma fruta,
E a vida um encontro tão fecundo
Em que olhávamos a flôr, e era o mundo!

11/01/2007

Da gloriosa infância da Alma (de Alma Welt)

Aos nove eu já fugia do meu leito
Pra subir até o Rôdo na mansarda,
Pra com ele comer algum confeito
E sonhar com "feitos de vanguarda".

E depois de uma "noite de prazer"
(às vezes eu dormia em seu colchão)
Nós descíamos ao amanhecer
Para o desjejum com chimarrão.

E logo zás! pra fora em correria
Para escapar da dura inquisição
Da Mutti, que apartar-nos gostaria...

Então, brisas no rosto, ó meu "sertão"!
Ó pampa!... de mãos dadas e ao léu,
Nossa infância gloriosa sob o céu!

10/07/2007

Minha lembrança da tia (de Alma Welt)

A única lembrança de uma tia
Que guardo, é um pouco nebulosa.
Uma quarentona glamurosa
Que era irmã da Mutti, a tia Luzia.

Chegou na estância e logo fascinou
A todos com sua grande simpatia
Que digo? Sua beleza é que marcou,
Mas talvez fosse um pouco de magia

Pois a tia, ah! que grande sedutora,
Quis ensaiar e montar encenação
E ensinar-me a dançar e ser cantora

De cabaré, mais exatamente...
E logo o Vati levou-a à estação,
E a face dela ficou velha... de repente.

06/01/2007

O tamanho do mundo (de Alma Welt)

Guria andei sozinha numa estrada
Aqui mesmo na estância, para ver
Aonde ela ia dar, e desastrada
Não cogitei da confusão que ia fazer.

Andei por uma hora e não acabava,
E já passava da hora de almoçar.
Pensei: mais uma hora pra voltar...
E sentando à margem mais chorava.

Então vi o Galdério na charrete
Que a mando do meu pai me procurava
E conhecia muito bem esta pivete

E levantando e enxugando o ranho
Eu disse: "Ah! Galdério, eu não contava
Com que o mundo tivesse esse tamanho..."

06/01/2007

Buenas falas (de Alma Welt)

O "gaucho" velho entrando se achegou
Trazido por meu pai à nossa sala
E pegando o meu queixo me olhou
Fundo nos olhos antes desta fala:

"Buenas, tchê, que prenda rareada!
Esta guria vai falar por todos nós,
Não somente pelos pais e os avós
Mas por todo o vinhedo e a peonada."

"Mas, bah!, co'esses olhos verde-guampa
Que atravessam o coração e causam dor
Não haverá par pra ela neste pampa!"

"Ela não se casará, infelizmente,
Mas não te preocupes que o amor
Será desta alma um bom servente..."


03/01/2007

Nossa Velha Infância" (de Alma Welt)

(para Arnaldo Antunes e Marisa Monte)


Minhas crianças lindas me rodeiam
Nos últimos momentos "mais felizes",
Adolescentes já, com seus deslizes,
Mas que ainda o bem e o belo anseiam.

E eu me pergunto justamente agora
Se lembranças desta "ainda" infância
Que eu sei, não tardará a ir embora,
Restarão encantadas nesta estância,

Se como este jardim e este pomar,
Esta sala imensa e com lareira
Ah! coberta ficará da vã poeira

De um período passado e tão distante,
Quando éramos felizes sem pensar
O que estou pensando neste instante...

23/12/2006

A "pontinha" da Alma (de Alma Welt)

Quando o sol se põe na minha varanda
Eu fico muito tempo a contemplar
Pra ver o universo como anda
Com minha estrela ainda a faltar.

Sim, porque meu pai me garantia
Que cada estrela é uma alma que cumpriu
O seu papel e agora brilha noite e dia,
Só visível quando o astro-rei saiu.

Mas eu sonho ainda ter algum destaque
Nessa imensa peça cosmogônica
E pra isso me comporto meio mal:

Uma estrelinha deslumbrada e basbaque
Fazendo uma pontinha meio cômica
Para um dia ter um brilho triunfal...

20/12/2006

Prelúdio à tarde de uma ninfa (de Alma Welt)

Muito me estendi na pedra chata,
Nua como Zeus me concebeu
Na borda do meu poço da cascata
A sonhar com algum herói aqueu

Que me possuiria sem coroa
Me doando como um fauno a sua linfa
Por me ver ali largada como ninfa,
Sem véu e sem grinalda, assim à toa.

Nada de castelos, carruagens
De abóbora, sapatinhos de cristal,
Nada dessas pueris bobagens!

Eu me via num bosque ideal
De um remoto tempo arcadiano,
Com Debussy, o Vati... e seu piano.

20/12/2006

Eu e os piratas (de Alma Welt)

Meu irmãozinho construiu embarcação
Toda de caixotes, pouco destra,
Com um cabo de vassoura e armação
Que pretendia ser a vela mestra.

E a arrastamos juntos ao laguinho
Da cascata, pra com ela navegarmos
Como piratas, eu com bigodinho,
Ele com a venda e os sarcasmos.

Mas eis que me vi numa enrascada,
Pois borrando meu bigode com o dedo
Ele disse: “ Descobri o teu segredo!”

“Já que és mulher és cobiçada
E vais ficar pelada e com medo,
Pois serás de toda a marujada!”

20/12/2006

No dia em que a Mutti nos flagrou (de Alma Welt)

No dia em que a Mutti nos flagrou
A mim e ao irmão em brincadeiras,
Pelos nossos cabelos arrastou
Entre peões e risadas zombeteiras.

Com a mãozinha, obrigada, eu cobria
As “vergonhas” ( o que não me ocorreria)
E fez-nos entrar no casarão
Para mais furibundo e atroz sermão.

Mas eis que o Vati, carinhoso
Disse: —Pára, mulher, assim não vai...
Criança é bichinho só curioso...

-Não a toques, vê, está pelada!
Gritava minha mãe ainda irada...
E ele: “Vem, minha princesa, com teu pai!"

20/12/2006

Olhar Cartesiano (de Alma Welt)

Meu pai um dia recebeu e hospedou
Um sábio francês, na minha infância.
Ele tinha um olhar que me chocou
Pois não havia igual aqui na estância.

Era o olhar, depois eu soube, de Descartes
De uma inteligência contundente
Mas a que faltava Engenho e Arte,
Uma vez que era só razão e mente.

E me lembro da repulsa que então tive,
Que me olhou longamente(estava tesa)
E era só um olhar de detetive

Que sondava a minha alma virginal
Para ver se encontrava o material
De que era feita a minha pureza...

19/12/2006

Missões... a minha poesia (de Alma Welt)

Meu pai, um dia, didático, me quis
Levar ao território das Missões
E mostrou-me o poder das Reduções
A força, a arte e fé dos Guaranis.

Eu, guria, na presença de tais muros
De dura pedra assentados pelo amor,
Jurei, por minha vez, com versos puros
Ergueria os meus, com a mesma dor,

Mas que a minha catedral não cairia,
Não tombaria como sombra de si mesma,
Não se arruínam os muros da Poesia:

As paredes erguidas verso a verso
E guardadas por mim qual abantesma,
Tijolinhos como estrelas no Universo.

18/12/2006

De pássaros e plumas (de Alma Welt)

Uma vez, quando pequena, na varanda,
Eu vi aproximar-se um cavaleiro,
Estávamos no mês de Fevereiro
E chovia, assim, como Deus manda.

E ele vinha, com a viola, encolhido
Como pássaro molhado, e sem amigo.
Um gaúcho não ereto, mas transido,
Apeando e pedindo sopa e abrigo.

Meu pai, pela viola o fez entrar,
O levou, antes da ceia, pro chuveiro
Pra despir e com água quente se banhar.

E eu, piá, na porta do banheiro
Fiquei, ali, fascinada, a observar
Aquela ave novamente se emplumar...

18/12/2006

Viagem ao pomar (de Alma Welt)

Pelas ondas do meu Pampa ideal
Eu percorro as rotas de minh'alma
E posso iluminar como um fanal
A nave que de mim venho mais calma.

É noite sobre o pampa e a estrela
Que me guia na viagem para o lar,
(que comecei antes mesmo de fazê-la)
Qual o Negrinho ainda vem me "pastorar".

É o meu destino de volta ao coração
Onde está a Poesia e o meu irmão
Rôdo, que no cais ainda espera

Para juntos encontrarmos nossa Era
No pomar da nossa bela macieira,
Onde tudo começou em brincadeira...

16/12/2006

Abro a janela... (de Alma Welt)

Abro a janela que dá para o jardim
E vejo meus irmãos ali brincando.
Ah! já começaram! E sem mim!
Voltei à infância, já me atrasando...

Esperem-me, Solange, Rôdo, Lúcia!
E vindos da futura geração
O pequeno Hans e seu irmão
Que parecem dois ursinhos de pelúcia.

Estamos todos juntos... como pode?
Ah! Somos crianças novamente!
Pedrinho pede a Pati que o rode

Ao compasso do *scherzo de Beethoven
Que o *Vati punha alto para a gente,
E que os meus ouvidos ainda ouvem...

16/12/2006

A Fada do meu Pampa (de Alma Welt)

Nas imensas noites da estância
Fico lá fora como antes ficava
Para ver as estrelas da infância
Aquelas que meu Vati me mostrava.

E vou pela constante e Branca Via
Com o meu Negrinho e sua rezes,
Que como uma delas me sentia
Ou como o pastorzinho às vezes.

Ah! Num doce aconchego eu vivia,
Por me sentir assim tão amparada...
A alma do meu Pampa me nutria!

E eu podia tudo conhecer
Voar e mergulhar como uma fada
No seio deste mundo, sem sofrer...

20/12/2006

Pinóquio (de Alma Welt)

Quando guria recebi aqui na estância
A visita deslumbrante de uma prima
Que vi como encarnação da infância
Sulina, clara e ingênua obra-prima.

E não pude resistir a convidá-la
Ao galpão, meu “templo dos amores”
Onde eu poderia “fazer sala”
Mostrando meus brinquedos e pendores.

Mas lembro que surgiu a dona Ana
E nos interrompeu doce colóquio
Com a varinha de marmelo açoriana

Quando já nos reclinávamos na palha,
Eu a contar a saga do Pinóquio,
Sem o mágico nariz, que é minha falha...

(sem data)

De sonhos, pipas, corações (Alma Welt)

Arrastados na corrente dos eventos
Vão os corações, de cambulhada,
Sonhos empinando-se nos ventos
Como pipas infantis na madrugada.

Bah! Depois sempre a derrocada,
Enroscados em fios ou altos galhos,
Pendendo, ali, patéticos frangalhos
Como triste ilusão abandonada.

Como custa renovarmos nossos sonhos
E empinar novas pipas encarnadas
Com os mesmos propósitos bisonhos!

Subir cabeceando, ah! subir
Esperando que as alturas alcançadas
Nos chamem, como a mãe, para dormir...

(sem data)

Entradas e bandeiras (de Alma Welt)

Noites do meu pampa, estreladas
Que nos faziam sair da nossa cama
Eu e Rodo, arfando, de mãos dadas
E mais a doce Lucia qual mucama

Que ficava de vigia, tantas vezes
Como pássaro fiel da madrugada
Para acenar c’uma fralda hasteada
Para evitar que tivéssemos revezes.

Mas não íamos tão longe, na verdade,
Pois o medo era bem próprio da idade,
E além do jardim era o mundão

Que à noite fechava suas fronteiras
Mas de dia franqueava o seu portão
E permitia entradas e bandeiras...

(sem data)